O aumento do consumo de açúcar na infância tem gerado preocupação entre pediatras, especialmente durante o período de férias escolares, quando a rotina das crianças sofre alterações significativas. Com mais tempo livre, menos horários definidos para refeições e maior acesso a lanches rápidos, cresce a ingestão de alimentos ultraprocessados, doces e bebidas adoçadas em uma fase considerada decisiva para o desenvolvimento físico e metabólico.

Foto: Shutterstock
A pediatra Vanessa Mendes, professora da pós-graduação em Pediatria da Afya Educação Médica, alerta que a exposição frequente ao açúcar desde cedo pode moldar o paladar infantil, criando uma preferência por sabores excessivamente doces. Segundo ela, esse “treinamento” do gosto dificulta escolhas alimentares mais equilibradas no futuro e pode gerar consequências que se estendem por toda a vida. “Tudo isso pode começar ainda na infância, mesmo em crianças que aparentam estar saudáveis”, explica a especialista.
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O organismo infantil, ainda em formação, tende a sofrer com a sobrecarga causada pelo consumo excessivo de açúcar. Entre os principais riscos apontados estão o sobrepeso e a obesidade infantil, cáries dentárias, elevação da pressão arterial, alterações nos níveis de colesterol e maior probabilidade de desenvolvimento de diabetes tipo 2. Além disso, a pediatra destaca possíveis impactos no sono, na atenção e no comportamento das crianças.
Outro ponto de atenção é a presença do açúcar de forma pouco perceptível na alimentação cotidiana. De acordo com Vanessa Mendes, muitos produtos voltados ao público infantil contêm grandes quantidades do ingrediente, como iogurtes, achocolatados, cereais matinais, biscoitos recheados, bebidas lácteas, molhos prontos, papinhas industrializadas, pães e itens de padaria. Durante as férias, quando aumentam as refeições fora de casa e os lanches improvisados, esse consumo tende a se intensificar. “Muitas vezes, os pais não percebem que a criança consome açúcar várias vezes ao dia”, alerta.
As bebidas adoçadas figuram entre os principais fatores de risco. Refrigerantes, refrescos em pó, sucos industrializados e néctares concentram altas doses de açúcar, são rapidamente absorvidos pelo organismo e não promovem saciedade, estimulando a ingestão contínua ao longo do dia. Esse hábito, segundo a especialista, costuma se agravar nos períodos de recesso escolar.
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Em Manaus, o cenário é potencializado por fatores climáticos e culturais. O calor intenso favorece o consumo frequente de líquidos, que muitas vezes ocorre por meio de bebidas adoçadas. Refrigerantes, sucos industrializados, achocolatados, bolachas recheadas, bolos açucarados e doces vendidos próximos às escolas fazem parte da rotina alimentar de muitas crianças. Durante as férias, com mais tempo em casa ou nas ruas, esse padrão tende a se repetir com ainda mais frequência, incluindo o consumo de dindins, bastante populares na capital e geralmente preparados com grandes quantidades de açúcar e corantes.
“O problema não é a criança sentir sede, mas matar essa sede com açúcar o tempo todo”, destaca Vanessa Mendes. Segundo ela, muitas crianças acabam ingerindo volumes elevados de açúcar ao longo do dia apenas para se hidratar, sem que isso seja percebido pelos responsáveis.
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Como alternativa, a pediatra ressalta o potencial dos alimentos regionais na promoção de hábitos mais saudáveis. Frutas amazônicas como cupuaçu, taperebá, graviola, buriti e açaí natural, quando consumidas sem adição de açúcar, contribuem para a educação do paladar infantil e oferecem nutrientes importantes, como fibras, vitaminas e minerais. A água de coco natural também é indicada como uma opção eficiente de hidratação no clima quente da região.
“A oferta regular desses alimentos, especialmente quando preparados em casa, reduz a necessidade de açúcar adicionado e contribui para a formação de hábitos alimentares mais saudáveis desde a infância. Esse olhar preventivo é uma das bases da pediatria e da formação médica de qualidade”, afirma a professora da Afya Educação Médica.