Um levantamento conduzido por uma rede nacional e internacional de pesquisadores identificou ao menos 369 espécies alimentares nativas ou subutilizadas no Brasil, revelando o potencial da biodiversidade para fortalecer a segurança alimentar. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, contou com a participação do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Foto: Miguel Monteiro/Mamirauá
A pesquisa chama atenção para os chamados “alimentos negligenciados”, que fazem parte da cultura alimentar de comunidades tradicionais, mas ainda têm pouca presença nos debates científicos, no mercado e na alimentação cotidiana da população. Entre eles estão frutos nativos, peixes de água doce, insetos, cogumelos e até algas, muitos ainda pouco explorados.
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Segundo o pesquisador do Mamirauá e coautor do estudo, Daniel Tregidgo, a diversidade alimentar da Amazônia pode desempenhar papel relevante na saúde pública. “Na Amazônia, onde o aumento do consumo de produtos ultraprocessados no lugar de alimentos tradicionais tem sido acompanhado de um aumento nos índices de anemia, diabetes e hipertensão, a rica biodiversidade local poderia ser uma aliada importante no combate à desnutrição”, afirmou.
Entre os exemplos citados está a bacaba, fruto típico da região Norte, rico em vitamina E, ferro e manganês. Além de ser utilizado em receitas como bolos, o alimento também pode acompanhar carnes de caça, aves e peixes, demonstrando sua versatilidade na culinária regional.
O estudo também aponta que, embora as plantas representem cerca de 30% das espécies listadas e concentrem a maior parte das informações nutricionais disponíveis, outros grupos ainda permanecem pouco investigados. Algas, insetos e cogumelos, por exemplo, carecem de estudos mais aprofundados.
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Para chegar aos resultados, os pesquisadores integraram conhecimentos de nutrição e ciências ambientais com ferramentas de inteligência artificial explicável. A metodologia permitiu identificar critérios para priorizar espécies com maior potencial para estudos futuros e inclusão em políticas públicas.
“Esse estudo mostra que é preciso aprofundar as pesquisas sobre aquilo que as comunidades tradicionais já sabem há gerações: a floresta é fonte de alimentos nutritivos e diversificar o prato pode ser também uma estratégia de saúde e de conservação”, destacou Tregidgo.
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De acordo com os pesquisadores, os dados obtidos devem contribuir para a formulação de políticas voltadas à nutrição e ao consumo alimentar no país, além de incentivar a valorização do conhecimento tradicional.
“A ideia é que a informação gerada na Amazônia retorne para as comunidades locais de forma acessível, fortalecendo a segurança alimentar e valorizando o conhecimento tradicional”, concluiu o pesquisador.