Ada Jamile Gomes de Oliveira, estudante de Manaus, criou o MeMO, que usa ondas binaurais de 12 Hz para modular, em células de laboratório, a expressão de genes ligados ao Alzheimer. A pesquisa é inicial, mas levou o 4º lugar na ISEF 2026, a maior feira de ciências do mundo.

Foto: divulgação
E se um tipo certo de som pudesse, um dia, ajudar a frear o avanço do Alzheimer? Foi essa pergunta ousada que levou uma estudante de Manaus ao pódio da maior feira de ciências pré-universitária do planeta. Ada Jamile Gomes de Oliveira usou ondas binaurais para mexer, em laboratório, na atividade de genes ligados à doença, e o resultado rendeu a ela um prêmio internacional nos Estados Unidos. Trata-se, porém, de pesquisa em estágio inicial, feita em células, não de um tratamento pronto.
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O feito foi noticiado pelo Jornal da USP em maio de 2026. O projeto se chama MeMO e conquistou o 4º lugar na categoria Translational Medical Science da ISEF 2026, a Regeneron International Science and Engineering Fair, realizada em Phoenix, no Arizona. Por trás dele está uma adolescente do Colégio Militar de Manaus, escola pública federal do Exército, movida por uma motivação dolorosamente pessoal: o Alzheimer dentro da própria família.
As ondas binaurais são um truque do cérebro: quando cada ouvido recebe um som de frequência levemente diferente, o cérebro percebe uma terceira “batida”, a tal onda binaural. No MeMO, Ada usou ondas binaurais de 12 Hz, uma faixa associada a certos padrões de atividade cerebral, para investigar se esse estímulo sonoro poderia influenciar processos ligados à doença.
A pesquisa não foi feita em pessoas, e esse detalhe é essencial. O experimento foi um bioensaio in vitro, ou seja, em células cultivadas no laboratório, da linhagem H4, expostas à batida binaural de 12 Hz por uma hora. A pergunta científica era direta: o som consegue alterar a forma como certos genes do Alzheimer se expressam nessas células? O MeMO nasceu para testar exatamente isso, com método e medição.
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O nome do projeto resume a ambição. MeMO remete à memória, justamente o que o Alzheimer rouba aos poucos. A proposta de Ada é explorar um caminho não invasivo e barato, em que o estímulo seria apenas o som, sem remédio nem cirurgia. É uma hipótese promissora, mas que ainda precisa percorrer um longo caminho até virar qualquer coisa parecida com terapia.
Do Amazonas para o pódio mundial: o 4º lugar na ISEF 2026
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O reconhecimento veio no maior palco possível para um jovem cientista. O MeMO conquistou o 4º lugar na categoria Translational Medical Science da ISEF 2026, com prêmio de US$ 600, na feira realizada entre 9 e 15 de maio em Phoenix, nos Estados Unidos. A ISEF 2026 é a maior feira de ciências e engenharia pré-universitária do mundo, e disputar nela já é um feito enorme.
O caminho até lá passou pelo Brasil. Ada chegou à ISEF 2026 após se destacar na FEBRACE, a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, promovida pela Escola Politécnica da USP, que é a principal porta de entrada dos estudantes brasileiros para a competição internacional. A delegação brasileira teve um desempenho forte, com vários prêmios trazidos para casa, e a estudante de Manaus foi uma das vozes desse grupo.
Colocar um projeto do Amazonas no pódio mundial tem peso simbólico enorme. Significa que uma adolescente de escola pública, partindo de uma dor familiar, competiu e venceu ao lado dos jovens mais brilhantes do planeta. A feira colocou o nome de Manaus no mapa da ciência mundial, e mostrou que o Brasil profundo também produz inovação de fronteira.

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Por que isso importa para milhões de famílias
Mesmo com toda a cautela, a relevância do tema é gigante. O Alzheimer atinge milhões de pessoas no mundo, rouba a memória e a autonomia, e ainda não tem cura, apenas tratamentos que amenizam sintomas. Qualquer fio de esperança científica, mesmo distante, mobiliza famílias inteiras que convivem com a doença, e foi de uma dessas famílias que o MeMO nasceu.
Há também o recado sobre de onde vem a inovação. Não foi um grande laboratório internacional que levantou essa hipótese ousada com ondas binaurais, e sim uma estudante de Manaus, na rede pública, com orientação e muita persistência. Apostar em educação e ciência no Brasil é o que faz surgir gente como Ada, capaz de competir no mais alto nível mundial.
No fim, o caso equilibra emoção e responsabilidade. De um lado, a história inspiradora de uma jovem do Amazonas premiada na ISEF 2026 por enfrentar o Alzheimer com criatividade. De outro, o dever de explicar que ciência séria leva tempo. É possível celebrar o feito sem prometer o que ainda não existe, e é exatamente assim que a conquista da estudante de Manaus deve ser lida.