ARTE & CULTURA

Histórias que venceram a escuridão: Manaus celebra a formação da primeira turma de cineastas cegos do Amazonas

Projeto pioneiro reuniu 14 alunos cegos e com baixa visão, resultando na produção de seis filmes autorais exibidos em uma noite marcada por emoção, inclusão e protagonismo cultural


Uma noite histórica para a cultura amazonense. Assim pode ser definida a Mostra de Resultados do projeto Vozes Visuais, realizada na última quinta-feira (11/06), no Teatro Gebes Medeiros, em Manaus. Diante de um público emocionado, foram exibidos seis curtas-metragens produzidos por alunos cegos e com baixa visão, marcando a formação da primeira turma de cineastas cegos do Amazonas.

Foto: Alexandre Pinheiro

O evento representou o encerramento de uma jornada de aprendizado, descobertas e superação vivida por 14 participantes que, ao longo de semanas de formação na Biblioteca Braille do Amazonas, mergulharam no universo do audiovisual e assumiram o papel de roteiristas, diretores, produtores e realizadores de suas próprias histórias.

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Mais do que uma mostra de cinema, a noite simbolizou uma conquista coletiva. Pela primeira vez, pessoas cegas e com baixa visão ocuparam integralmente o processo de criação cinematográfica, desafiando conceitos tradicionais sobre quem pode produzir audiovisual e de que forma o cinema pode ser construído.

Foram exibidos os filmes Transcendência, de Anastácio Silva; Renascer nos Braços de Deus, de Timóteo Miranda e Suzete Mourão; Entre Idas e Vindas, de Sibele Gomes; Fábrica de Sonhos, de João Alencar; O Que é Capacitismo?, de Marselha Cauper e Andrhês Oliveira; e Superação, de Ricardo Alves.

Foto: Alexandre Pinheiro

Cada obra apresentou experiências de vida, reflexões, sonhos, desafios e conquistas dos realizadores, revelando diferentes formas de perceber e narrar o mundo. Entre relatos de fé, resiliência, inclusão, preconceito e esperança, os filmes emocionaram o público e mostraram que o cinema pode ser construído muito além da imagem.

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Para a idealizadora e coordenadora do projeto, Keylla Gomes, a mostra representa um marco para a acessibilidade cultural no Amazonas. “Quando pensamos o Vozes Visuais, sonhávamos em abrir uma porta que durante muito tempo permaneceu fechada para as pessoas cegas. Ver esses alunos ocupando o lugar de realizadores, exibindo seus filmes para o público e compartilhando suas histórias é algo que emociona profundamente. Hoje não estamos apenas encerrando uma oficina. Estamos celebrando o nascimento de novos cineastas e mostrando que a arte deve ser um espaço de pertencimento para todos”, destacou.

O projeto nasceu a partir da trajetória de Keylla Gomes na realização de ações culturais inclusivas em Manaus. Após experiências bem-sucedidas com oficinas de teatro e audiovisual voltadas para pessoas surdas, surgiu o desejo de ampliar esse trabalho para a comunidade cega e de baixa visão, criando uma metodologia capaz de transformar a escuta, a imaginação e as experiências sensoriais em ferramentas de criação cinematográfica.

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Foto: Alexandre Pinheiro

A proposta encontrou apoio imediato do produtor audiovisual e oficineiro Anderson Mendes, responsável por conduzir a formação ao lado da equipe do projeto. “Quando a Keylla me apresentou a ideia de realizar uma oficina de cinema para pessoas cegas, eu fiquei muito impactado. Era um desafio enorme, mas também uma oportunidade única de construir algo inovador e necessário. A coragem dela em tirar esse projeto do papel foi fundamental para que chegássemos até aqui. Desde o primeiro encontro percebemos que não estávamos apenas ensinando cinema. Estávamos aprendendo novas formas de sentir, perceber e contar histórias. Hoje, ver esses filmes prontos e essa turma formada é uma das experiências mais marcantes da minha trajetória profissional”, afirmou Anderson Mendes.

A realização do projeto também contou com o apoio fundamental da Biblioteca Braille do Amazonas, que acolheu as atividades formativas e ofereceu o ambiente necessário para o desenvolvimento da oficina. Para Gilson Mauro, gestor da Biblioteca Braille do Amazonas, a iniciativa representa um marco para a inclusão cultural no estado.

“Quando a Biblioteca Braille abriu as portas para o Vozes Visuais, acreditamos imediatamente no potencial transformador da proposta. Ao longo das oficinas, vimos nossos usuários descobrirem novas possibilidades de expressão, fortalecendo sua autonomia e revelando talentos que muitas vezes permanecem invisíveis para a sociedade. É uma alegria muito grande testemunhar o nascimento da primeira turma de cineastas cegos do Amazonas. Esse projeto deixa um legado importante para a cultura, para a inclusão e para a valorização das capacidades das pessoas com deficiência visual”, ressaltou.

Entre os momentos mais emocionantes da noite esteve a exibição do documentário Superação, dirigido pelo maratonista Ricardo Alves. O filme retrata sua trajetória de vida, marcada pela determinação diante dos desafios impostos pela deficiência visual e pela busca constante por novos caminhos.

Após a exibição, Ricardo compartilhou a emoção de ver sua história projetada na tela. “Eu nunca imaginei que um dia estaria exibindo um filme sobre a minha própria história. Durante muito tempo as pessoas enxergaram apenas minhas limitações, mas o projeto me mostrou que eu também posso criar, dirigir e inspirar outras pessoas. Ver meu filme na tela, ouvir os aplausos e perceber que minha história tocou tantas pessoas foi uma emoção que vou levar para o resto da vida. Hoje eu me sinto mais forte, mais confiante e muito feliz”, declarou emocionado.

Foto: Alexandre Pinheiro

A mostra foi encerrada com uma roda de conversa entre os realizadores e o público, promovendo um encontro marcado por trocas de experiências, reflexões sobre acessibilidade e relatos sobre o processo de criação dos filmes. Mais do que apresentar seis obras inéditas, o Vozes Visuais mostrou que a inclusão cultural acontece quando as pessoas têm a oportunidade de criar, experimentar e ocupar espaços historicamente inacessíveis.

Ao formar a primeira turma de cineastas cegos do Amazonas, o projeto inaugura um novo capítulo para o audiovisual amazonense e deixa como legado a certeza de que toda história merece ser contada — independentemente da forma como cada pessoa enxerga o mundo.

Sobre o projeto

Vozes Visuais é um projeto contemplado pela Lei Paulo Gustavo, através do CONEC Amazonas, Secretaria de Cultura e Economia Criativa e Governo do Amazonas, Ministério da Cultura e Governo Federal. Tem o apoio da Biblioteca Braille do Amazonas e é uma realização da Mk Produções.